quinta-feira, 12 de junho de 2008

Como água e vinho

O ser humano tem este estranho poder, o de gostar de coisas ou pessoas completamente distintas, não é mesmo? Isso acontece comigo com certa frequência. Um bom exemplo é o cursinho pré-vestibular que estou fazendo. Às quartas a gente tem aula de redação e de história. A professora Adilse, a calma, alterna com o professor Antonio, o provocador, nas aulas de redação. História fica por conta de Muriel, a louca.
As aulas da Adilse são calmas como um poço sem provocar sono, coisa bem difícil, diga-se de passagem. As aulas da Muriel são como um furacão na cabeça da gente, sem que se perca o fio da meada.
A Adilse tem domínio da aula sem dominar nada nem ninguém. É tão interessante o jeito pelo qual ela apresenta regência verbal, por exemplo, que todos ficam atentos. Ela aprendeu muito com o velho e bom Édison de Oliveira, um dos mais famosos professores de português do nosso estado, que faleceu em março desse ano. Veja matéria aqui.
A Muriel, por sua vez, faz a gente pensar em coisas bem atuais ao mesmo tempo em que nos lança no meio de lutas espartanas, de tragédias gregas, de imperadores romanos. Ela nos faz rir como nenhum outro, com suas mudanças de voz, suas interpretações de personagens, suas opiniões pessoais entremeadas no contexto histórico e nem assim perde o controle da situação. Quando as intervenções dos alunos tendem a se estender (inclusive as minhas) ela corta logo o barato e lá vamos nós de volta ao que, de fato, interessa.
São duas mulheres com as quais eu me impressiono. Eu que gosto de dar aulas, que tenho prazer em ensinar qualquer coisa que eu saiba e que passei 2007 dando aulas no curso de massagem, admiro essa capacidade de manter a turma atenta e interessada no assunto, por mais chato que seja.
Mais que me impressionar, eu gosto das duas, tão diferentes. É importante um aluno gostar do professor. O que aquele professor diz, fica gravado, pode ter certeza. Aliás, a Muriel nem sabe que dei um codinome a ela. Nenhum deles sabe, ainda. Hehehehe. Quem sabe um dia desses eles lêem o blog e descobrem.
Entre tantas profissões legais e pouco valorizadas, com certeza a arte de ensinar merece destaque. Ganham pouco, em geral, e têm muito trabalho fora da sala de aula para poder trazer algo que valha a pena, que realmente interesse aos alunos. Mas o mais admirável neste caso é o fato de que estas duas mulheres, juntamente com todos os outros professores da ONG, são voluntários. Fazer um trabalho bom ganhando pouco não é pra qualquer um. Fazer o mesmo sem ganhar nada, é sei lá, do outro mundo, quem sabe? Não é por nada que ao final de cada aula eu sempre digo um sonoro obrigado a cada um deles. Todos merecem.

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Lua Nua disse...

Bonito e merecido o que você falou sobre professores. São mestres típicos de cursinho e tentam insentivar a moçada.

Duro é aturar alguns professores de faculdade que nas primeiras aulas sacam da pasta aquelas folhas de papel amareladas com o uso. Você olha aquilo e pensa: vou procurar algum aluno do semestre passado e ver se ele tem as provas dessa matéria, porque vc pode contar que as provas também são as mesmas anos a fio. Esse é um cara chato que faz a turma dormir sem dó.

Tô gostando de ver sua animação com as aulas.

Bjs

Guilherme disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme disse...

Fico imaginando quais os objetivos, as expectativas desses professores... creio que um professor não motivado nunca conseguiria dar aulas assim em um trabalho voluntário.

Wladimir disse...

Lua, uma vez eu comecei um curso de jornalismo e entendo bem o que tu falaste. Achei aquilo tudo um horror: professores idiotas, colegas interessados só no diploma e eu pensando todos os dias "o que estou fazendo aqui?" Óbvio que saí fora daquilo.

Guilherme, li algo interessante sobre a doação: devemos devolver ao mundo parte daquilo que a vida nos ofereceu. É uma possível abordagem do trabalho voluntário: a gratidão para com a vida expressa na ajuda ao próximo...