Calma, vou explicar. A enorme maioria dos poemas que já li — e foram muitos — é de uma chatice sufocante. Começa pela escolha das palavras: raramente um poeta usa palavras simples para escrever poesia. Que saco! Eu só admito o uso de um dicionário para poder ler quando o idioma é outro!
Outro problema sério é o tamanho de alguns poemas. Santa misericórdia! Tem cada um que parece 10 num só! A gente vai lendo aquilo, faz uma parada pro lanche, volta, lê mais um pouco, cansa os olhos e os dois neurônios, resolve tirar uma soneca, volta a ler, baba em cima do teclado, e o texto ali, parecendo a maratona de Porto Alegre...
Um terceiro problema são as unanimidades: experimente falar mal de Fernando Pessoa em frente a alguma criatura culta! Você será esbofeteado, provavelmente. Isso, claro, depois de ser tratado como um verme ignorante, onde já se viu! Pois é, mas eu acho a maioria dos poemas de Pessoa um saco! Lá vem porrada! Hehehehe.
Agora, o pior de tudo são os aspirantes a poeta. Ah, pobre ingenuidade esta de quem acredita que falar difícil é bonito e atraente! Chego a ver as criaturas debruçadas sobre dicionários escolhendo as palavras para seus poemas, descontruindo frases inteiras e reposicionando as palavras de um jeito para que fique bem difícil de entender, diferente de tudo aquilo que um ser normal faria... "Invejai, reles mortais!", diria o gênio com um sorriso vitorioso nos lábios.
Outra coisa que me incomoda são certas imagens absurdas criadas pelos poetas. A gente lê a pérola literária e fica pensando: o que este filhodaputa quis dizer com essa coisa toda? Eu costumo fazer o seguinte exercício: pego um desses poemas empavonados* (risos) e reduzo-o até chegar àquilo que acredito que o autor quis dizer. Veja o que fiz com um poema de Neruda.
Os teus pés - Pablo Neruda
Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés. (pés separados do corpo?)
Teus pés de osso arqueado, (existe pé de osso reto?)
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso (a menos que fosse amputada,
Sobre eles se ergue. não poderia ser de outro modo)
Tua cintura e teus seios, (pronto, cadê os pés?)
A duplicada púrpura
Dos teus mamilos, (oh! ela tem dois!)
A caixa dos teus olhos (caixa? como assim?)
Que há pouco levantaram vôo, (pegaram um avião? criaram asas?)
A larga boca de fruta, (ai, jesus... melhor não comentar esta)
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha. (mulher, torre, não entendi a relação)
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.
Eu acredito, do fundo do meu coração, que o poeta quis dizer o seguinte:
Amo teus pés
Só porque andaram
Sobre a terra,
Até me encontrarem.
Eu não sou podólatra, tampouco romântico, mas acredito que seria uma coisa linda para se dizer a alguém: amo teus pés só porque andaram sobre a terra até me encontrarem.
Esses poetas...
*Empavonado - Segundo o Aurélio, particípio do verbo empavonar, ou seja, cheio de vaidade, inchado, que age como um pavão.

7 Vai ficar quieto?:
Num ia comentar, mas num me aguento...
Eu AMO poesia, essa em especial. Todas do Neruda, do Fernando Pessoa e muitas, muitas mais.
Mas não acho que quem não goste é ignorante, nem nada. Apenas é alguém que não gosta de poesia. E boa.
Só acho uma infâmia quem não gosta (e, portanto, não entende) se meter a esculhambar.
Eu não gosto de rap. Não gosto e, claro, não entendo. Jamais meto minha colher.
Isso se chama respeito para com aqueles que curtem.
Podia ter ficado sem postar esse texto... seria bem melhor.
Ainda continuo gostando do que escreve, só acho que dessa vez, faiou. Como todo mundo um dia, viu?
Beijo grande,
Gisele, se teu comentário pudesse constituir um problema para mim, eu só publicaria depois de passar pelo meu crivo. O espaço de comentário aqui é aberto. Claro que eu posso apagar depois, mas só faço isso quando acho que a pessoa foi ofensiva. Portanto, comente com tranquilidade. A tua discordância leva a mim e outros que lerem à reflexão. Eu não gosto mesmo de unanimidades.
Eu amoo poesia e faço minhas as palavras da Gisele. O importante em poesia meu caro, não é olhar as palavras e imaginá-las como está no dicionário, e sim sentir os desejos de quem as falou/escreveu. Não é fácil gostar de poesia mesmo, é precisa saber ler nas entrelinhas!
Cara Fernanda
Como dizia seu avô, "gente merece respeito". A menos que voltemos aos tempos da ditadura militar, da qual eu vivenciei o final, o direito de expressar-se é inquestionável. Portanto, sinta-se à vontade; só deleto comentários ofensivos. Porém, não mudo uma vírgula do que eu disse no post.
Wladimir. Eu fico muiiiiiito impressionada com esta unanimidade pela poesia em geral. E mais me espanta que as pessoas não admitam críticas, como se só o gênero prosa pudesse ser espinafrado. Eu, nos meus achismos, considero qualquer obra em aberto passível de crítica. Meus blogs, inclusive, é claro. E concordo com você item por item. Eu sou muiiiiiito exigente em relação a poesia. É algumas coisas do Mario Quintana, algumas do Neruda, algumas do Drummond e muitas do Lemisnki. Quem disse que toda obra é intocável e prima? Oras! Muito bom seu blog. Vou linkar e visitar.
abração
maris
Eu sou ignorante em poesia, já tentei ler Neruda e me senti frustrado de não entender o que parecia um código, pra mim isso é poesia de fritar neurônio, hehe. Outras poesias eu entendi, talvez não o que o poeta quis dizer, mas o que já fazia parte de mim.
Maristela, lembraste bem. Mario Quintana aqui em Porto Alegre é unanimidade. Eu gosto de pouquíssimas dele. E olha que li vários livros!
Guilherme, uma coisa é entender de poesia (eu também não entendo nada de estilo algum), outra coisa é não entender a poesia que se está lendo. Tu podes me explicar que diabo é "caixa dos olhos"?
Postar um comentário