domingo, 8 de junho de 2008

Eu não gosto de poesia!

Calma, vou explicar. A enorme maioria dos poemas que já li — e foram muitos — é de uma chatice sufocante. Começa pela escolha das palavras: raramente um poeta usa palavras simples para escrever poesia. Que saco! Eu só admito o uso de um dicionário para poder ler quando o idioma é outro!
Outro problema sério é o tamanho de alguns poemas. Santa misericórdia! Tem cada um que parece 10 num só! A gente vai lendo aquilo, faz uma parada pro lanche, volta, lê mais um pouco, cansa os olhos e os dois neurônios, resolve tirar uma soneca, volta a ler, baba em cima do teclado, e o texto ali, parecendo a maratona de Porto Alegre...
Um terceiro problema são as unanimidades: experimente falar mal de Fernando Pessoa em frente a alguma criatura culta! Você será esbofeteado, provavelmente. Isso, claro, depois de ser tratado como um verme ignorante, onde já se viu! Pois é, mas eu acho a maioria dos poemas de Pessoa um saco! Lá vem porrada! Hehehehe.
Agora, o pior de tudo são os aspirantes a poeta. Ah, pobre ingenuidade esta de quem acredita que falar difícil é bonito e atraente! Chego a ver as criaturas debruçadas sobre dicionários escolhendo as palavras para seus poemas, descontruindo frases inteiras e reposicionando as palavras de um jeito para que fique bem difícil de entender, diferente de tudo aquilo que um ser normal faria... "Invejai, reles mortais!", diria o gênio com um sorriso vitorioso nos lábios.
Outra coisa que me incomoda são certas imagens absurdas criadas pelos poetas. A gente lê a pérola literária e fica pensando: o que este filhodaputa quis dizer com essa coisa toda? Eu costumo fazer o seguinte exercício: pego um desses poemas empavonados* (risos) e reduzo-o até chegar àquilo que acredito que o autor quis dizer. Veja o que fiz com um poema de Neruda.
Os teus pés - Pablo Neruda

Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés. (pés separados do corpo?)

Teus pés de osso arqueado, (existe pé de osso reto?)
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso (a menos que fosse amputada,
Sobre eles se ergue. não poderia ser de outro modo)

Tua cintura e teus seios, (pronto, cadê os pés?)
A duplicada púrpura
Dos teus mamilos, (oh! ela tem dois!)
A caixa dos teus olhos (caixa? como assim?)
Que há pouco levantaram vôo, (pegaram um avião? criaram asas?)
A larga boca de fruta, (ai, jesus... melhor não comentar esta)
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha. (mulher, torre, não entendi a relação)

Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.
Eu acredito, do fundo do meu coração, que o poeta quis dizer o seguinte:

Amo teus pés
Só porque andaram
Sobre a terra,
Até me encontrarem.
Eu não sou podólatra, tampouco romântico, mas acredito que seria uma coisa linda para se dizer a alguém: amo teus pés só porque andaram sobre a terra até me encontrarem.
Esses poetas...
*Empavonado - Segundo o Aurélio, particípio do verbo empavonar, ou seja, cheio de vaidade, inchado, que age como um pavão.

15 Deixe seu comentário::

Gisele disse...

Num ia comentar, mas num me aguento...
Eu AMO poesia, essa em especial. Todas do Neruda, do Fernando Pessoa e muitas, muitas mais.
Mas não acho que quem não goste é ignorante, nem nada. Apenas é alguém que não gosta de poesia. E boa.
Só acho uma infâmia quem não gosta (e, portanto, não entende) se meter a esculhambar.
Eu não gosto de rap. Não gosto e, claro, não entendo. Jamais meto minha colher.
Isso se chama respeito para com aqueles que curtem.
Podia ter ficado sem postar esse texto... seria bem melhor.
Ainda continuo gostando do que escreve, só acho que dessa vez, faiou. Como todo mundo um dia, viu?
Beijo grande,

Wladimir disse...

Gisele, se teu comentário pudesse constituir um problema para mim, eu só publicaria depois de passar pelo meu crivo. O espaço de comentário aqui é aberto. Claro que eu posso apagar depois, mas só faço isso quando acho que a pessoa foi ofensiva. Portanto, comente com tranquilidade. A tua discordância leva a mim e outros que lerem à reflexão. Eu não gosto mesmo de unanimidades.

Fernanda Pereira disse...

Eu amoo poesia e faço minhas as palavras da Gisele. O importante em poesia meu caro, não é olhar as palavras e imaginá-las como está no dicionário, e sim sentir os desejos de quem as falou/escreveu. Não é fácil gostar de poesia mesmo, é precisa saber ler nas entrelinhas!

Wladimir disse...

Cara Fernanda

Como dizia seu avô, "gente merece respeito". A menos que voltemos aos tempos da ditadura militar, da qual eu vivenciei o final, o direito de expressar-se é inquestionável. Portanto, sinta-se à vontade; só deleto comentários ofensivos. Porém, não mudo uma vírgula do que eu disse no post.

maristela disse...

Wladimir. Eu fico muiiiiiito impressionada com esta unanimidade pela poesia em geral. E mais me espanta que as pessoas não admitam críticas, como se só o gênero prosa pudesse ser espinafrado. Eu, nos meus achismos, considero qualquer obra em aberto passível de crítica. Meus blogs, inclusive, é claro. E concordo com você item por item. Eu sou muiiiiiito exigente em relação a poesia. É algumas coisas do Mario Quintana, algumas do Neruda, algumas do Drummond e muitas do Lemisnki. Quem disse que toda obra é intocável e prima? Oras! Muito bom seu blog. Vou linkar e visitar.
abração
maris

Guilherme disse...

Eu sou ignorante em poesia, já tentei ler Neruda e me senti frustrado de não entender o que parecia um código, pra mim isso é poesia de fritar neurônio, hehe. Outras poesias eu entendi, talvez não o que o poeta quis dizer, mas o que já fazia parte de mim.

Wladimir disse...

Maristela, lembraste bem. Mario Quintana aqui em Porto Alegre é unanimidade. Eu gosto de pouquíssimas dele. E olha que li vários livros!

Guilherme, uma coisa é entender de poesia (eu também não entendo nada de estilo algum), outra coisa é não entender a poesia que se está lendo. Tu podes me explicar que diabo é "caixa dos olhos"?

Valdecy Alves disse...

Parabéns pelo blog voltado para cultura. Leia minha poesia: CANTO AO CEARÁ, selecionada para coletânea do XII Prêmio Ideal Clube de Literatura. Obra lançada no dia 21 de janeiro de 2010. Leia, comente e divulgue. Veja também meu documentário, penúltima matéria do blog: Padim Ciço, Santo ou Coronel? Meu blog: www.valdecyalves.blogspot.com

Angela disse...

Amei...acho que sou uma excessão!
Achei este texto por acaso, estava fuçando na internet para ter idéias sobre poesia (que não gosto, por acaso)
E não gosto não ´porquê não entendo, mas porquê acho muito chata mesmo!
Já li várias coisas, inclusive do Pablo Neruda, confesso que fico impressionada com a habilidade para escrever, mas acho que se recebesse de alguém teria uma dor de barriga! Ah, podem dizer que sou mal amada...pois garanto que não sou, apenas gosto de coisas simples...como dizer eu te amo, ou gosto de você, cumplicidade, bom humor...coisas que todo mundo entende. inclusive trocaria este texto todo dos pés por uma boa massagem nos meus pes!!!! Ué, se ama meus pés, cuida deles um pouquinho então!!!

Amei o texto e quase morri de rir com a versão do texto do Pablo Neruda.

Abç.
Angela

Luciano Pires disse...

Ok, sempre existirá pessoas que gostam de É o Tchan...por ser um estilo mais fácil de música, sempre existirá quem curte Comédias e nem sabe quem é um Hitchcock...sempre existirá poesias pra entendidos e poesias pra leigos, sempre existirá quem ama a simplicidade e quem ama a complexidade...mas a poesia é tão ampla pra se dizer que não gosta...talvez alguns poetas sejam prolixos demais(prolixo, o que é isso?) mas condenar toda a poesia é exagero...mas teu texto é divertido e bom de ler, e poetas xiitas e suas posições unilaterais são um saco...

Joakim Antonio disse...

Olá Wladimir, muito bom o post.

Ninguém é obrigado gostar de nada, tem pessoas que gostam de cães outras de gatos ou de nenhum, cada um possui sua natureza.

Sempre haverão os que acham absurdo alguém não gostar do mesmo que eles, imagina se os cientistas saíssem por aí achando um absurdo quem não vê a beleza dos cálculos como eles.

Eu tento ser poeta, gosto do simples, Cora Coralina é a maior expressão do simples, na minha humilde opinião.

A poesia tem regras que a tornam mais bela à quem conhece, o que não implica que deveríamos escrever apenas para críticos "especializados".

Mais uma vez parabéns Wladimir, isso ajuda as pessoas a ver que não precisam ter vergonha de falar que não gostam, não entendem, ou simplesmente nunca leram poesia.

Vergonha é querer impor um gosto nosso aos outros, viver em paz é a melhor política :)

Abraços e ótimo fim de semana!

Marivone Vieira disse...

Acho que a poesia, como qualquer outra coisa, pode se dividir entre boa, ruim, mediana, excelente, obra-prima e por aí vai. Existe poesia boa, excelente, obra-prima, etc., escrita por autores renomados e por outros pouco conhecidos, MAS existe poesia ruim, mediana e péssima escreta por gente de altas pompas. Tou com você, meu caro. Muitas vezes perco minha paciência com poesia, mas não renego seu valor como um todo. Ah! E essa de Neruda dói.

Samir Tortnarim Tavares disse...

Meu nome é Samir;

Também não gosto muito de poesias.
Mas admiro o poeta rapper, que brinca com a poesia e dá vida a ela. Ler a poesia obriga o leitor a vivificar a letra, a absorver, digerir e depois poder tirar suas conclusões... Como degustar um vinho!!! Não tenho paciência para degustar.

Att.

Samir Tavares

Driele Fernanda disse...

Eu concordo com você. Eu até gosto de poesias, mas acho que poesia foi feita para ser lida individualmente, não um monte delas ao mesmo tempo. É bom ter um livro de poesia e ler uma por dia. E claro tem muitas poesias chatas que são nacionalmente reconhecidas como símbolos culturais- literários e talz... Mas tem poesias que marcam nossa memória de tão bem feitas!

Anônimo disse...

Experimenta lá fazer poesia com as crianças a morrer de fome, os velhos abandonados, sobre a miséria, pobreza,..., poesia não serve para nada ( a não ser aquelas compreensíveis e com inteligente jogo de palavras e são muito poucas...)as outras não querem dizer nada. Os que dizem gostar de poesia muitos fingem que entendem (para serem aceites ou considerados cultos ou para cortejar) outros imaginam que entenderam...mas nem sempre é a mensagem, o que o poeta quis dizer...enfim. Sejam simples e verdadeiros, vivem mais em consonância com os valores ( sempre é melhor a filosofia) essa é a verdadeira poesia e não se deslumbrem por frases cheias de floreados que até chegam a serem ridículas.